“Se você ama o futuro, não pode perder a chance de ajudar a criá-lo” (Ray Bradbury)

Uma entrevista memorável com o grande Ray Bradbury, publicada no excelente e extinto site NoMínimo, em 2004. Perda irreparável, o fim do NoMínimo.

“Se você ama o futuro, não pode perder a chance de ajudar a criá-lo.”
“Michael Moore é ladrão e mentiroso”
entrevista com Ray Bradbury por Ricardo Calil

02.08.2004 | Só existe uma pessoa mais irritada do que George W. Bush com “Fahrenheit 9/11”, documentário de Michael Moore que acaba de estrear no Brasil. É o escritor norte-americano Ray Bradbury, autor do livro “Fahrenheit 451”, que inspirou o título do filme. “Moore é um ladrão e um mentiroso. Ele roubou meu título e não quer devolvê-lo”, afirma Bradbury em entrevista a NoMínimo, por telefone, de Los Angeles.

“Fahrenheit 451” (1953) é um clássico da ficção científica, uma alegoria sobre uma sociedade do futuro em que obras literárias são incineradas por um governo totalitário. O título é uma referência à temperatura em que os livros queimam. Já foi adaptado para o cinema por François Truffaut em 1966 e ganhará um remake no ano que vem, com direção de Frank Darabont (“Um Sonho de Liberdade”).

“Fahrenheit 11 de Setembro” (como o filme se chama no Brasil) é o panfleto em forma de documentário que Moore dirigiu com o objetivo de tirar Bush da presidência dos Estados Unidos. O título refere-se à data dos atentados terroristas ao World Trade Center. Mas, segundo o cineasta, representa também a temperatura em que a liberdade queima.

O escritor não compra essa versão. “Não existe nenhuma relação entre o filme e o livro. Minha obra não é política, e sim filosófica”, afirma. Ele não pretende processar o cineasta, mas promete continuar protestando.

Ray Bradbury é um dos mais importantes e prolíficos autores de ficção científica da história. Além de “Fahrenheit 451”, escreveu obras fundamentais do gênero, como o romance “Crônicas Marcianas” (1950) e o conto “The Veldt” (1946). Por este último trabalho, ele é considerado o pai da realidade virtual, já que a história trata de duas crianças que aprisionam os pais em um ambiente de computador.

O escritor também é uma personalidade sui generis dentro desse universo. Nunca faz pesquisas para seus livros, tira sua inspiração de velhos quadrinhos de Flash Gordon, datilografa seus textos em uma velha máquina de escrever e vê os computadores com enorme desprezo.

“O computador é apenas a soma da máquina de escrever, do fax e do telefone. Já tenho tudo isso. Então, para quê computador? Estão tentando nos vender mais
máquinas do que precisamos”, afirma. Sem papas na língua, ele gosta de usar o mesmo adjetivo para classificar novidades tecnológicas como a Internet, os videogames e os filmes da série “Matrix”: “São todos estúpidos”.

Aos 83 anos, Bradbury continua escrevendo todos os dias e lançando novos livros a cada ano. Em um gênero marcado por mudanças rápidas, ele permanece no topo há quase 60 anos. Na entrevista a seguir, revela seu segredo: “Eu escrevo sobre seres humanos, não sobre máquinas”.

Por que o senhor ficou chateado com a referência a “Fahrenheit 451” no título do filme de Michael Moore?

Porque Moore roubou meu título. Ele nunca me pediu permissão para usá-lo. E eu tentei entrar em contato com ele durante seis meses.

Moore nunca chegou a procurá-lo?

Duas semanas atrás, um amigo encontrou-o em uma festa em Beverly Hills, deu o meu telefone e pediu para ele me ligar. Moore finalmente telefonou e pediu desculpas. Eu disse que queria meu título de volta. E ele falou que não poderia mudá-lo agora. Mas vou continuar protestando.

O senhor pensa em processá-lo?

Você já processou alguém? Demora anos, você gasta uma fortuna e nunca ganha nada.

O senhor viu o filme?

Ele nunca me convidou para assisti-lo.

Depois desse episódio, qual sua opinião sobre Moore?
Ele é um ladrão e um mentiroso.

O senhor vê alguma relação entre seu livro e o filme de Moore?

Nenhuma. Meu livro não é político. É uma reflexão filosófica, existencial.

Mas ele tem muito de crítica social, não?

Sim, mas isso não foi consciente. Escrevi o livro por diversão, mas acabou saindo mais crítico do que eu imaginava.

A ameaça à liberdade de expressão não seria um tema em comum entre o livro e o filme?

O tema do livro não é a liberdade de expressão, e sim o risco de as pessoas deixarem de se interessar pela escrita e pela leitura.

O senhor acredita que esse risco é real hoje?

Mais do que nunca. A sociedade desistiu de ensinar os jovens a ler e escrever. Não é necessário queimar livros para destruir uma cultura. Basta que as pessoas não os leiam. Os estudantes americanos chegam ao colegial sem saber ler e escrever porque foram mal ensinados. Temos que colocar todo nosso dinheiro e nossos esforços no ensino básico.

No começo da administração Bush, o senhor declarou estar animado porque o governo federal havia definido a educação como prioridade. Três anos depois, qual sua avaliação sobre o desempenho na área?

Não vi muita ação nesse sentido. Mas acho que o presidente não pode ser culpado por tudo. A educação também é responsabilidade das autoridades municipais e estaduais, dos professores e diretores de escolas.

Em um quadro mais amplo, qual sua opinião sobre o governo Bush?

Eu não falo sobre política. Sou um eleitor independente. Democratas e republicanos têm de implorar para conseguir meu voto.

Em que pé está o remake de “Fahrenheit 451”?

Já fizeram 12 versões do roteiro. A maioria delas era um lixo. Mas a versão final do Frank Darabont ficou boa. Ele é um grande roteirista e um ótimo ser humano. Pelo que sei, vão filmar no final do ano.

O senhor teve alguma participação no processo?

Escrevi uma versão do roteiro há sete anos e entreguei para o Mel Gibson, que seria o produtor. Nunca tive retorno. Acho que ele não está mais no projeto.

O que o senhor acha da versão de 1966 dirigida por François Truffaut?

É um bom filme. Gosto da direção, dos atores e da trilha sonora. Mas as cenas em que os personagens voam são horríveis. O Truffaut deixou de lado várias partes importantes do livro porque achava que não havia tecnologia na época para fazer certas coisas. Mas bastava usar um pouco de imaginação. Felizmente, o roteiro do Darabont coloca essas partes de volta.

Como foi trabalhar com John Huston no roteiro de “Moby Dick” (1956)?

Foi uma experiência fantástica. Eu aprendi a escrever roteiros adaptando o maior romance americano da história. Huston leu meu conto “The Foghorn”, achou que eu seria o sucessor de Melville e me convidou para escrever o roteiro na Irlanda. O problema é que eu nunca havia lido “Moby Dick”. Ele me deu uma noite para ler o que conseguia. “Tente me ajudar a matar a grande baleia branca!”, ele disse. Era um homem estranho, um herético, mas um grande cineasta.

O senhor tem visto filmes de ficção científica recentemente?

Muito pouco. E não vi nada interessante.

O que achou da série “Matrix”?

Comecei a assistir, mas desisti no meio. O filme está mais interessado nos efeitos especiais do que na história.

E a série “O Senhor dos Anéis”?

Muito bem filmada. Tive vontade de voltar aos meus 15 anos.

O senhor é considerado o pai da realidade virtual por causa do conto “The Veldt”. Concorda com a definição?

Não me vejo assim. Mas muitas pessoas dizem isso. Acho que o conto foi bastante inovador, porque foram necessários 50 anos para tornar possível a criação de um ambiente virtual como o que eu descrevi.

O senhor acredita que os videogames estão próximos da realidade virtual prevista no conto?

Não. Videogames são estúpidos. Eu sempre digo às pessoas que trabalham com realidade virtual para usar mais o cérebro na hora de criar games.

E a Internet? Está próxima de seu conto?

Eu não sei nada de Internet. Não tenho computador. Um amigo me deu um de presente, mas não gostei. Ele fazia muitos erros. Eu não. Mandei devolver.

O senhor ainda escreve à máquina?

Sim, tenho quatro máquinas de escrever. O computador é apenas a soma da máquina de escrever, do fax e do telefone. Já tenho tudo isso. Então, para quê um computador? Eu sou mais esperto do que ele. As pessoas não precisam de tantos computadores. Estão tentando nos vender mais máquinas do que precisamos.

Não há nenhum avanço tecnológico que o deixe entusiasmado?

Claro que há. O Projeto Genoma, por exemplo. As profissões mais importantes do mundo são a medicina, que cura os problemas do corpo, e a literatura, que cura os da alma.

Ainda existe muito preconceito contra a ficção científica como gênero literário?

Não como antigamente. “Fahrenheit 451”, por exemplo, é leitura obrigatória em milhares de escolas americanas. Para mim, a ficção científica é o gênero literário mais importante que existe. Tudo que o homem sonha é ficção, e tudo que ele inventa é ciência. Portanto, a história da humanidade é ficção científica.

Quais são os melhores autores de ficção científica da história?

Jules Verne e H.G. Wells.

O que o senhor acha dos autores “cyberpunk”, como William Gibson?

Não tenho interesse. Dei uma olhada em alguns livros. Eles não sabem escrever.

É verdade que as histórias em quadrinhos são uma grande influência na sua obra?

Claro. Ainda tenho minha coleção de “Flash Gordon” e “Buck Rogers”. Eles me ajudaram a imaginar o futuro. Foi por causa deles que decidi escrever ficção científica. Até o final do ano, vão lançar uma versão em quadrinhos de “Fahrenheit 451”. Fiquei muito orgulhoso.

Qual o maior reconhecimento que o senhor teve pela sua obra?

Uma cratera da Lua foi batizada de Dandelion em homenagem a meu livro “Dandelion Wine” (1957).

O senhor atuou como consultor na construção de parques temáticos como o Epcot Center e a EuroDisney. Como foi esse trabalho?

Foi excelente. Eu forneci metáforas para que eles construíssem os prédios dedicados à ciência. Quando caminho por essas construções, sinto como se estivesse viajando dentro do meu cérebro. Se você ama o futuro, não pode perder a chance de ajudar a criá-lo.

O senhor continua escrevendo todos os dias?

Sim. Todos os dias, há 70 anos. Acordo sempre às sete da manhã com vontade de correr para a máquina. Quer melhor maneira de me tornar imortal do que escrever todos os dias até o final da minha vida?

Qual é o segredo para se manter há tanto tempo no topo de um gênero que muda tão rapidamente?

Você tem que ser um gênio! Brincadeira… Precisa estar apaixonado pelas histórias que escreve, tem que acreditar nelas. Mas o principal é escrever sobre homens, não sobre máquinas. A ciência está sempre mudando, mas o homem não.

“A tal da ego-esclerose… hoje, pavão, amanhã, espanador” (BNegão)

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PRIORIDADES

Letra: Bnegão

Música: Rodrigues, Bnegão, Kalunga, Muzak, Pedrão e Pedro Garcia.

lyrics:

Paz não se pede, paz se conquista

E não será com guerra pois guerra-santa não existe, não insista

Guerra-santa, paz satânica? Acho que não

Permita-me lembrar o que disse avatar mais notado da história da nossa esfera: “não sobrará pedra sobre pedra”

Pois se querem mesmo a paz, porque as armas continuam a ser fabricadas em massa em nossa era?

Tudo nesse mundo é emprestado, não faz sentido algum então ficar apegado, agregado ao que não te leva mais além, não te deixa sossegado

Pois se a liberdade hoje se parece com 1 cigarro ou com o carro mais potente do mercado

Me desculpe, mas as bolas foram trocadas bem na sua frente

E você nem se tocou; pagou, comprou, levou assim mesmo o seu atual presente: felicidade completa como uma boca sem dente, tão libertário quanto uma bola de ferro com corrente algemada aos seus pés.

Eu digo: crescimento econômico não gerará paz na terra, já que a estatística do lucro não leva em conta a miséria.

Também pudera: Miséria de alma gera miséria humana, nada mais, nada menos que o reflexo da nossa atmosfera interna

Supunhetemos, hipotéticamente, então, distribuição ecumênica de renda e informação, os primeiros passos de evolução nesse plano, além de iluminar com sapiência divina parco conhecimento humano

Pois nessa época de carro na frente dos bois; supérfulo na frente, necessidade depois

Nossa capacidade de enxergar a realidade vale mais do que a riqueza de mil cidades

PRIORIZE AS PRIORIDADES, AMIZADE

PRIORIZE AS PRIORIDADES, CUPADI

PRIORIZE AS PRIORIDADES, CAMARADAGEM

PRIORIZE O QUE FARÁ DIFERENÇA NA SUA PASSAGEM

Somos atores que vestiram a carapuça e se confudiram com seus personagens; auto-sabotagem

Esmagamos a nós mesmos com nossa auto-imagem

A tal da ego-esclerose como diria o professor Hermógenes

Mas veja bem, não tô aqui numa de inquisidor pois como se diz: “Hoje pavão, amanhã espanador”

Nos encontramos no mesmo titanic

Até o último minuto, você me pede que fique, eu digo que fico,

Porém me confudir com um fanático religioso é o mesmo que confudir remédio pra micose com pó-de-mico

Osmose é como classifico quase que de vez em sempre o comportamento humano: o que quase todos fazem é o certo, o resto é pura viagem, ledo engano

Então é isso: living la vida tosca! No acordo, o chifrudo entra com a pemba, o mundo inteiro entra com a rosca

Pede a Deus que te livre das moscas, mas não pensa em nenhum momento em limpar realmente a sua casa; para com esse tipo de atitude eu faço como Tim Maia, o mestre, fazia quando queria passar o lima nos seus shows na gringa: “Send the lima!”

Pois nessa época de carro na frente dos bois, o que é necessário não pode ser deixado pra depois

Nossa capacidade de enxergar a realidade será nosso passaporte de liberdade (off de babylon)

REFRÃO

Nosso maior inimigo somos nós mesmos

Reféns de nossa própria ignorância (ignorância da própria)

Orgulho, às vezes o que o espelho mostra é duro de ver

Admitir que o que tu critica é bem parecido com você

Realidade que choca, mudança de comportamento tão lenta quanto uma tartaruga judoca

Corpo sem alma é como um vinil que não toca

Na real, a gente é como o sol, não nasce nem morre, só sai do campo de visão normal

E como ele, energia eterna, irmão

Transição de milênio, reta final 100%

Os dias passam na velocidade de 1 pavio de bomba aceso…

Ficha Técnica:
BNEGÃO – VOZ

PEDRÃO – TRUMPETE

KALUNGA – BAIXO

MUZAK – GUITARRAS

PEDRO GARCIA – BATERIA

BIDU CORDEIRO – TROMBONE

AS GATAS – VOZES

GRAVADO NO BOOMBOX STUDIO POR PEDRO GARCIA

MIXADO POR GUSTAVO LENZA E INSTITUTO NO DUB STUDIOS

Stanislaw Ponte Preta por Paulo Mendes Campos

Paulo Mendes Campos (in “O Anjo Bêbado”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1969, pág. 7).

SÉRGIO E STANISLAW PONTE PRETA

“O diabo é que todo mundo pensa que sou um cínico; ninguém acredita que sou um sentimentalão que não agüenta uma gata pelo rabo.”

Sérgio me dizia isso a milhares de metros de altitude, copo de uísque na mão, rumo a Buenos Aires. Ao saber que eu tinha resolvido assisti ao jogo Brasil e Uruguai, no Campeonato Pan-Americano de 1959, veio procurar-me com uma ansiedade incomum: precisava afastar-se do Rio de qualquer jeito, me disse, tinha decisivos assuntos íntimos sobre os quais queria pensar.

Sendo assim, por que ir a Buenos Aires? Não fiz a pergunta por entendê-lo: Sérgio possuía o talento de viver em diversas faixas ao mesmo tempo; Buenos Aires lhe calhava numa instância de decisões pessoais porque o recolhimento do hotel se somava aos benefícios do torneio de futebol, da companhia dos amigos, das anedotas jornalísticas e até mesmo dos restaurantes portenhos.

Já dentro do avião, nessa ou em qualquer outra viagem, desligado de suas duras obrigações, transformava-se: mesmo roído por dentro, a gratuidade do instante era boa demais para não ser aproveitada. Sempre que uma aeromoça lhe perguntava se queria um sanduíche ou um refrigerante, respondia alegremente com uma frase que ouviu de Billy Blanco: “Quero tudo a que eu tenha direito.” E era verdade.

Na chegada a Buenos Aires, houve uma dessas súbitas situações cômicas criadas por aquele homem carregado de conflitos: avião estacionado, entrou nele um médico da saúde pública, um homem ruivo e bastante calvo. Pedindo aos passageiros que exibissem o atestado de vacina, o médico estendeu a mão para Sérgio, ao mesmo tempo que dizia em tom cavo e impessoal: “Vacunación, señor.” Como se estivesse recebendo um cumprimento de boas-vindas, Stanislaw (aí era ele), muito grave, apertou a mão do médico, falando claro e efusivo: “Vacunación para usted también?” O médico, rubro de indignação, expulsou-nos do avião, sem mais exigir o documento sanitário e, enquanto eu explodia de rir, ele sussurrava-me entre os dentes: “Agüenta a mão, se não a gente acaba em cana.”

O dom mais surpreendente de Sérgio era esse trânsito livre entre as manifestações da vida. Ainda no dia de nossa chegada a Buenos Aires, eu o veria em atitudes múltiplas: durante o jogo dramático entre o Brasil e o Uruguai (o três a um da briga), ele deu um empurrão nos peitos dum argentino que insultava os brasileiros, chorou quando Paulo Valentim fez o terceiro gol, riu-se às gargalhadas quando o Garrincha passou indiferente entre uruguaios e entrou no ônibus com um sanduíche enorme na boca e outr na mão; e ainda conversou longamente comigo sobre suas aflições, depois de cear com entusiasmo.

Quando acordei, ele já andava pelo saguão, depois de ler os jornais todos, à cata de histórias do Mendonça Falcão – a máquina já destampada no quarto.

Fiquei seu amigo há mais de vinte anos, quando ele escrevia crônicas de música popular para a revista Sombra. Bonito, forte, elegante, inteligente, alegre, simpático – era um privilegiado sem ostentação. Só lhe faltava o $, como de resto ao grupo todo: mesmo mal pagos, tínhamos de aceitar as ofertas que a imprensa nos fazia como um favor, bicando aqui e ali, sofrendo na carne os atrasos do caixa, brigando pelo dinheirinho de cada dia. Mas o clima não era de miséria nem de tristeza: bebíamos crepuscularmente nosso uísque escocês no Pardellas da Rua México, dançávamos no Vogue, andávamos de táxi. Já que o dinheiro era pouco, o jeito era gastá-lo no essencial: o apartamento próprio que esperasse.

Eustáquio Duarte, Lúcio Rangel, Luís Jardim, Cássio Fonseca, Jarbas Duarte eram diariamente pontuais no Pardellas; Zé Lins do Rego, Rosário Fusco, Santa Rosa, Jaime Adour da Câmara, Flávio de Aquino, Simeão Leal, Luis Santa Cruz e outros apareciam com freqüência. O jazz negro era o nosso alimento: Sérgio e seu tio Lúcio Rangel ensinaram ao resto da turma o que era puro nesse setor e o que se contaminara.

Por um momento, numa fase financeira mais dura, quase o acompanhei num gesto até certo ponto desesperado: o de escrever programas de rádio. Para ele foi o início duma vida de sucesso profissional e cruel desgaste físico. Na imprensa, no rádio e na televisão do Brasil a ascensão se confunde com a queda. Sucesso nesse terreno não é poder trabalhar menos e ganhar o suficiente: é trabalhar sempre mais. Vitorioso no Brasil é o jornalista que sempre encontra mercado de trabalho; e não preços mais altos. Só chega ao chamado certo nível de vida somando diversas atividades corrosivas.

O humorista começou a surgir no semanário Comício, excelente escola de descontração do estilo jornalístico, dirigido por Rubem Braga, e Joel Silveira, onde escreviam ainda Clarice Lispector, Millôr Fernandes, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Rafael Correia de Oliveira, Carlos Castelo Branco, Edmar Morel, onde também apareceram as primeiras crônicas de Antônio Maria e as primeiras reportagens de Pedro Gomes.

Digo o humorista profissional, porque o da convivência com os amigos vinha do tempo das peladas em Copacabana: Sandro Moreira, João Saldanha, Mauricinho Porto, George Rangel, Máriozinho de Oliveira, Carlos Peixoto e Carlinhos Niemeyer são alguns que se lembram das histórias engraçadas de Sérgio, o Bolão.

Sua vivacidade era tão instantânea que sempre a aceitei com naturalidade. Espantava-me, isto sim, seu discernimento, agudo, preciso, a respeito de tudo: uma canção, um cantor, um vestido, um quadro, uma atmosfera, uma situação complicada. Dizia em cima a palavra exata, a observação certa, o julgamento justo.

O contraditório é que pudesse fazer humorismo uma pessoa que possuía tanto senso das proporções e da verdade escondida. Seu humorismo, bem reparado, não era o usual, pelo contrário, ele fazia humor sem caricaturar o assunto. Bernard Shaw, quando queria fazer graça, dizia a verdade. Ele também fez graça falando verdades, descobrindo verdades, tendo a coragem de ser odiado por dizê-las.

Como todo homem de sensibilidade, precisava de amigos e afeto; mas desprezava os mesquinhos, os medíocres, os debilóides, os cretinos.

Seu gosto era certo. Amava os livros e os discos, milhares de discos, discos que ouvia às vezes enquanto trabalhava, atendendo ao telefone a todo instante, recebendo amigos, contando piadas, e continuando a batucar na máquina, insistindo para que o visitante ficasse, sob a afirmação (verdadeira) de que estava acostumado a escrever no meio da maior confusão.

Eu, que apesar de tarimbado, já começo a ficar afobado no fim deste mal enramado artigo, com a redação querendo saber se já pode mandar buscá-lo, lembro a tranqüilidade de Sérgio no meio do caos, e não entendo o segredo que o dotou ao mesmo tempo de extraordinária capacidade de trabalho e da calma que deve ser a dos monges tibetanos.

De que morreu Sérgio Porto? Do coração e do trabalho.

No fim do ano passado, nas vésperas de Natal, estivemos juntos em Brasília: ele se lamentou o tempo todo no dia da volta, dizendo que ficaria ali, na ociosidade do hotel, por um tempo indeterminado. Foi difícil arrancá-lo da cama ao anoitecer. Este ano viajamos novamente juntos para São Paulo e Belo Horizonte. Foi a mesma coisa. Queria descansar, transfigurando-se no repouso, encarando com horror as atividades que o esperavam no Rio.

Na nossa última noite em Belo Horizonte, ele, Fernando, Rubem, Gérson Sabino e eu jantamos num restaurante muito bonito, que tinha de tudo, menos comida mineira. Sérgio reclamou tristemente durante todo o jantar. Queria arroz, feijão, couve, lingüiça.

Não sei por que essa lembrança me comove e serve para fechar esta página que eu não queria triste. Que a tristeza fique conosco, os amigos que o amavam.

Bibliografia:

Como Stanislaw Ponte Preta:

– Tia Zulmira e Eu – Editora do Autor, 1961

– Primo Altamirando e Elas – Editora do Autor, 1962

– Rosamundo e os Outros – Editora do Autor, 1963

– Garoto Linha Dura – Editora do Autor, 1964

– FEBEAPÁ1 (Primeiro Festival de Besteira Que Assola o País), Editora do Autor, 1966

– FEBEAPÁ2 (Segundo Festival de Besteira Que Assola o Pais), Editora Sabiá, 1967

– Na Terra do Crioulo Doido – FEBEAPÁ3 – A Máquina de Fazer Doido – Editora Sabiá, 1968

Com o nome de Sérgio Porto:

– A Casa Demolida – Editora do Autor/1963 (Reedição ampliada e revista de O Homem ao Lado – Livraria. José Olympio Editores)

– As Cariocas – Editora Civilização Brasileira, 1967

Sobre o autor:

– Dupla Exposição: Stanislaw Sérgio Ponte Porto Preta, Renato Sérgio, Ediouro, Rio de Janeiro, 1998.

– De Copacabana à Boca do Mato: o Rio de Janeiro de Sérgio Porto e Stanislaw Ponte Preta, Cláudia Mesquita.

“Saturno, patrono dos alquimistas” (Alexander Roob)

“Em tempos, Saturno foi o arrogante soberano da ‘Idade de Ouro’ da eterna juventude, mas desde que seu filho Júpiter o venceu e, segundo a Ilíada, foi ‘posto debaixo da terra’, a sua condição tornou-se lamentável; como Pai da Morte, com a foice na mão, passou a encarnar o aspecto destruidor do tempo e representa o ‘portão das trevas’ original da obra, que a matéria tem que transpor ‘para ser renovada na luz do paraíso’ (Aeyrenaeus Philalethes, Ripley Revived, Londres, 1677). A ele é atribuído o nível mais ínfimo e grosseiro, o sedimento da construção do mundo, pedras, terra e chumbo (antimônio). Böhme chamou-lhe ‘o soberano austero, frio, severo e rigoroso’ (Aurora), que criou o esqueleto material do universo.
Para os neoplatônicos, porém, ele se converteu ‘na figura mais sublime de um panteão interpretado em termos filosóficos’ (Klibansky, Panofsky, Saxl, Saturn und Melancholie, Frankfurt, 1992). De acordo com Plotino (205 – 270), ele simboliza o espírito puro, e Agrippa von Nettesheim (1486 – 1535) refere-se-lhe como ‘um deus imponente, sábio e compreensivo, o pai da contemplação silenciosa’ e um ‘guardião e descobridor de mistérios’ (De occulta philosophia, 1510). Foi assim que Saturno se converteu no patrono dos alquimistas, o seu modelo identificador.”

(extraído de Alquimia e Misticismo, O Museu Hermético – de Alexander Roob, Ed. Taschen)

Mercúrio (Hermes)

http://www.mundodosfilosofos.com.br/mercurio.htm

Mercúrio era filho de Júpiter e de Maia, filha de Atlas. Os gregos chamavam-no Hermes, isto é, intérprete ou mensageiro. Seu nome latino vinha da palavra Merces, mercadoria. Mensageiro dos deuses e particularmente de Júpiter, ele os servia com um zelo infatigável e sem escrúpulo, mesmo nos empregos pouco honestos. Participava de todos os negócios, como ministro ou servidor. Ocupava-se da paz e da guerra, das querelas e dos amores dos deuses, do interior do Olimpo, dos interesses gerais do mundo, no céu, assim como na terra e nos Infernos. Encarregava-se de fornecer e servir ambrosia à mesa dos Imortais, presidia aos jogos, às assembléias, escutava os discursos e respondia, ou por si ou de acordo com as ordens recebidas. Conduzia ao Inferno as almas dos mortos com a sua vareta divina ou o seu caduceu; algumas vezes reconduzia-as à terra. Ninguém morria antes que ele tivesse inteiramente rompido os laços que unem a alma ao corpo.

Deus da eloquência e da arte de bem falar, ele o era também dos viajantes, dos negociantes e mesmo dos ladrões. Embaixador plenipotenciário dos deuses, assistia aos tratados de aliança, sancionava-os, retificava-os, não era estranho às declarações de guerra entre as cidades e os povos. Dia e noite não cessava de vigiar atento e alerta. Em uma palavra, era o mais ocupado dos deuses e dos homens. Acompanhava e guardava Juno com toda perseverança, impedindo-a de urdir qualquer intriga. Era mandado por Júpiter para facilitar-lhe agradabilíssimas entradas entre os mortais, para transportar Castor e Pólux a Palem, para acompanhar o carro de Plutão raptando Prosérpina; atirava-se do alto do Olimpo e atravessava o espaço com a rapidez do raio. Foi a ele que os deuses confiaram a delicada missão de conduzir diante do pastor Páris as três deusas que se disputavam o prêmio da beleza.

Tantos empregos, tantas atribuições diversas concedidas a Mercúrio davam-lhe uma importância considerável no conselho dos deuses. Por outro lado os homens acrescentavam ainda as suas qualidades divinas, atribuindo-lhes mil talentos industriosos. Não somente contribuía para o desenvolvimento do comércio e das artes, como também se dizia que fora ele quem em primeiro lugar formara uma língua exata e regular, quem inventara os primeiros caracteres da escritura, quem regulara a harmonia das frases, quem pusera nome a uma infinidade de coisas, quem instituíra práticas religiosas, quem multiplicara e fortalecera as relações sociais, quem ensinara o dever aos esposos e aos membros da mesma família. Ensinara também aos homens a luta e a dança, e em geral todos os exercícios ao ar livre que necessitavam força e graça. Finalmente foi ele o inventor da lira, à qual deu três cordas, e que ficou sendo o instrumento de Apolo. As suas qualidades são contrabalançadas por defeitos. O seu gênio inquieto, a sua conduta dolosa suscitaram-lhe mais de uma questão com os outros deuses. Júpiter mesmo, esquecendo um dia todos os serviços desse dedicado servidor, expulsou-o do céu, reduziu-o a guarda de rebanhos na terra; foi no mesmo tempo em que Apolo foi ferido pela mesma desgraça.

Acusou-se Mercúrio de um grande número de ladroeiras. Ainda criança, esse deus dos negociantes e dos ladrões furtou o tridente de Netuno, as flechas de Apolo, a espada de Marte e o cinto de Vênus. Roubou também os bois de Apolo; mas em virtude de uma convenção pacífica, trocou-os pela sua lira. Esses furtos, alegorias bastante transparentes, indicam que Mercúrio, sem dúvida personificação de um mortal ilustre, era ao mesmo tempo hábil navegador, provecto atirador de arco, valente na guerra, elegante e gracioso em todas as artes, negociante consumado, permutando o agradável pelo útil.

Tornou-se culpado de um assassinato para proteger os amores de Júpiter.

Argos, filho de Arestor, tinha cem olhos, dos quais cinqüenta ficavam abertos enquanto o sono adormecia os outros cinqüenta. Juno confiou-lhe a guarda de Io, mudada em vaca; Mercúrio, porém, adormeceu ao som de sua flauta esse guarda vigilante, e cortou-lhe a cabeça. Juno, desolada e iludida, tomou os olhos de Argos e os espalhou sobre a cauda do pavão. Outros contam que Argos foi por essa deusa metamorfoseado em pavão.

O culto de Mercúrio nada tinha de particular, senão que se lhe ofereciam as línguas das vítimas, emblema de sua eloquência. Pelo mesmo motivo ofereciam-lhe leite e mel. Imolavam-lhe vitelas e galos. Era especialmente venerado em Creta, país comercial, e em Cilene, na Élida, porque pensavam que tinha nascido no monte do mesmo nome, situado perto dessa cidade. Ele tinha também um oráculo em Acaie; depois de muitas cerimônias, falava-se na orelha do deus, para pedir o que se desejava. Em seguida saía-se do templo, com as orelhas tapadas com as mãos, e as primeiras palavras que se ouvissem eram a resposta de Mercúrio.

Em Roma os negociantes celebravam uma festa em honra sua, a 1.° de maio, dia em que lhe dedicaram um templo no circo. Sacrificavam uma porca prenha, e se aspergiam com a água de certa fonte à qual se atribuía uma virtude divina, rogando ao deus de proteger o seu comércio e de perdoar-lhes as pequenas velhacarias.

O “ex-voto” que os viajantes lhe ofertavam à volta de uma longa e penosa viagem, eram pés alados.

Como divindade tutelar, Mercúrio é geralmente representado com uma bolsa na mão. Em alguns monumentos é representado com uma bolsa na mão esquerda, e na direita uma ramo de oliveira e uma clava, símbolos, um de paz, útil ao comércio, o outro de força e de virtude, necessários ao tráfico. Como negociador dos deuses, traz na mão o caduceu, vareta mágica ou divina, emblema da paz. O caduceu é entrelaçado de duas serpentes, de sorte que a parte superior forma um arco; além disso é superado por duas extremidades de asas. O deus tem asas no seu gorro, e algumas vezes nos pés, para mostrar a ligeireza de seu andar e a rapidez com que executa as ordens.

Geralmente é descrito como um jovem, belo de rosto, de um talhe desenvolto, ora nu, ora com um manto nos ombros, que apenas o cobre.

Usa muito freqüentemente um chapéu chamado petaso, que tem asas. É raro representá-lo sentado. As suas diferentes ocupações no céu, na terra e nos Infernos, obrigavam-no a uma constante atividade. Em algumas pinturas vê-se o deus com metade do rosto clara e a outra metade negra e sombria: isso indica que ora está no céu ou na terra, ora nos Infernos, para onde conduz a alma dos mortos.

Quando o representavam com uma longa barba e cara de velho, davam-lhe um manto que lhe descia até os pés.

Dizem que Mercúrio é o pai do deus Pã, fruto dos seus amores com Penélope. Penélope não foi a única mortal, nem a única deusa, honrada pelos seus favores; teve ainda como amantes, Acacalis, filha de Minos, Herse, filha de Cécrops, Eupolêmia, filha de Mirmidon, que lhe deu muitos filhos, Antianira, mãe de Equion, Prosérpina e a ninfa Lara, de quem nasceram os deuses Lares.

Hermes, sendo nome próprio de Mercúrio em grego, era dado a certas estátuas de mármore, e algumas vezes de bronze, sem braços e sem pés. Os atenienses, e seguindo o seu exemplo, outros povos da Grécia, mesmo depois os romanos, colocavam Hermes nas encruzilhadas das cidades e grandes estradas, porque Mercúrio presidia às viagens e aos caminhos. Geralmente, Hermes é uma coluna com uma cabeça; tendo duas cabeças, uma é de Mercúrio reunida à de outra divindade.

A quarta-feira (mercredi, em francês) dia da semana, é-lhe consagrada (Mercurii dies).
Tipo e Atributos de Mercúrio

A mudança, a transição, a passagem de um estado a outro foram personificados em Mercúrio. (Hermes). Mensageiro celeste, leva aos deuses as preces dos homens e aos homens os benefícios dos deuses; condutor das sombras, é a transição entre a vida e a morte; deus da eloqüência e dos tratados, faz passar ao espírito dos outros o pensamento de um orador ou de um legado. É o deus dos ginásios, porque na luta há troca de forças; é o deus do comércio e dos ladrões, porque um objeto vendido ou roubado passa de uma mão a outra.

Na grande época da arte, esse deus se revestiu de caráter muitíssimo diferente. Mercúrio torna-se, então, um efebo, macio e ágil, sempre imberbe, de cabelos curtos e apresentando o tipo perfeito dos jovens que freqüentam os ginásios. O seu rosto nunca tem a majestosidade de Júpiter, nem a altivez de Apolo, mas freqüentemente o cunho de uma grande finura, de acordo com o seu papel na Lenda, em que personifica a astúcia e a habilidade.

Dá-se ainda a Mercúrio outra série de atributos em relação com as suas diferentes funções. Como divindade pastoral, acompanhado uma ou outra vez de um carneiro ou uma cabra; como inventor da lira, coloca-se-lhe ao lado uma tartaruga. É um galo que o caracteriza como deus do ginásio, e a bolsa que segura com a mão revela o deus da mudança.

Mercúrio nasceu da união de Júpiter e de Maia, filha do Titã Atlas. Divindade arcádia, é numa gruta do monte Cilene que vê o dia pela primeira vez, e é por isso que alguns lhe dão o nome de deus de Cilene. Poucas divindades aparecem tão freqüentemente como Mercúrio na mitologia; o seu papel é importantíssimo, e em numerosos casos é, como os nossos criados de comédia, o personagem que tudo faz, embora sempre dependente.

Além das cenas da Lenda, das quais participa diretamente, Mercúrio surge em alguns monumentos ao lado de outras divindades, às quais se liga simbolicamente. Uma moeda de Marco Aurélio apresenta-o ao lado de Minerva, em virtude da relação existente entre o deus do comércio e a deusa da indústria. As relações com Vênus são ainda mais diretas, pois da união de ambos é que nasce Hermafrodita (Hermes-Aphrodite). Plutarco explica tal união dizendo que a eloqüência e o encanto da linguagem devem associar-se ao atrativo da beleza.
Mercúrio, Inventor da Lira

Mercúrio inventou a lira no mesmo dia em que nasceu. “Mal saiu do seio materno, não ficou envolto nos sagrados cueiros; pelo contrário, imediatamente ultrapassou o limiar do antro sombrio. Encontrou uma tartaruga e dela se apoderou. Estava ela na estrada da gruta, arrastando-se devagar e comendo as flores do campo. Ao vê-la o filho de Júpiter alegra-se; pega-a com ambas as mãos, e volta para a sua morada, com o interessante amigo. Esvazia a escama com o cinzel de brilhante aço e arranca a vida à tartaruga. Em seguida, corta alguns caniços, na medida certa, e com eles fura o costado da tartaruga de escama de pedra; em volta estende com habilidade uma pele de boi, adapta um cabo, no qual, nos dois lados, mergulha cavilhas; em seguida, acrescenta sete cordas harmoniosas de tripa de ovelha.

“Terminando o trabalho, ergue o delicioso instrumento, bate-o com cadência empregando o arco, e a sua mão produz retumbante som. Então o deus canta improvisando harmoniosos versos, e assim como os jovens nos festins se entregam à alegria, ele também conta as entrevistas com Júpiter e a formosa Maia, sua mãe, celebra o seu nascimento ilustre, canta as companheiras da ninfa, as suas ricas moradas, os tripés e os suntuosos tanques que se encontram na gruta.” (Hino homérico).
Mercúrio, Rei dos Ladrões

Desde a mais tenra infância mostrou Mercúrio as qualidades que dele iriam fazer o deus dos ladrões. No mesmo dia em que nasceu, roubou o tridente de Netuno, as setas de Cupido, a espada de Marte, a cintura de Vênus, etc. Foi para fechar tão belo dia que foi roubar os bois guardados por Apolo, e para que ninguém lhe seguisse as pegadas, resolveu fazê-los caminhar de costas. Levou-os assim até Pilos, onde imolou dois aos deuses do Olimpo, e ocultou os demais numa caverna.

Mercúrio desconfiou que o pastor Bato, o qual guarda em tal lugar os rebanhos do rico Neleu, divulgaria o seu roubo, se fosse interrogado, e sobretudo se disso lhe adviesse alguma vantagem; assim, aproximando-se-lhe, pôs-se a acariciá-lo, e disse-lhe pegando-o pela mão: “Meu amigo, se por acaso alguém vier pedir-te novas deste rebanho, dize que o não viste; como recompensa, dou-te esta bela novilha. – Podes estar certo, retrucou Bato, recebendo-a; esta pedra que vês será mais capaz de trair-te o segredo do que eu.” Mercúrio fingiu, então, afastar-se, e voltando um instante depois sob outro aspecto: “Bom homem, disse-lhe, se viste passar por aqui um rebanho, peço-te que me ajudes a procurá-lo; não favoreças com o teu silêncio o roubo que sofri; dar-te-ei uma vaca e um touro.” O ancião, vendo que lhe ofereciam o dobro do que recebera: “Penso, respondeu, que o teu rebanho deve estar nas cercanias desta montanha; sim, deve estar, se não me engano!” Mercúrio, rindo-se de tais palavras, disse-lhe: “Ah, tu me trais, não é verdade? Pérfido, enganas-me!” Assim dizendo, metamorfoseou-o na pedra que se chama de toque, a qual serve para reconhecer-se se o ouro é de boa liga ou se é falso. (Ovídio).

Quando sobreveio o dia, Mercúrio voltou às alturas de Cilene. Ali, curva-se e esgueira-se para dentro da morada, entrando pela fechadura. Caminha com passo furtivo no reduto sagrado da gruta, penetra sem ruído como faz habitualmente na Terra, e assim chega até o seu leito, onde se cobre com fraldas, como qualquer criancinha e fica deitado, com uma das mãos brincando com a faixa, e com a outra empunhando a melodioso lira. Mas o deus não pudera ocultar a fuga a sua mãe, que lhe dirigiu a palavra nestes termos: “Pequenino astuto, menino cheio de audácia, de onde vens durante a treva da noite? Temo que o poderoso filho de Latona te cubra os membros de pesados laços, te arranque a esta morada, ou te surpreenda nos vales, ocupado em temerários roubos.”

Mercúrio respondeu-lhe com as palavras cheias de astúcia: “Mamãe, por que pretendes assustar-me como se eu fora uma criança débil que mal conhece uma fraude e treme ouvindo a voz de sua mãe? Quero continuar a exercer esta arte que me parece a melhor par a tua glória e a minha.” (Hino homérico).

Apolo não conseguia informações sobre os bois; mas notando um pássaro que cruza o céu, com as asas abertas, reconhece imediatamente, na sua qualidade de profeta e áugure, que o ladrão é o filho de Júpiter. Atira-se com rapidez aos picos de Cilene, e penetra na gruta, onde Maia deu à luz Mercúrio. O menino, vendo Apolo irritado pelo roubo das reses, amontoa-se numa bola e envolve-se nas fraldas.

O filho de Latona, após procurar por toda parte, dirige estas palavras a Mercúrio: “Menino, que repousas neste berço, dize-me imediatamente onde estão as minhas reses; se o não fizeres, erguer-se-ão entre nós funestos debates; agarrar-te-ei e precipitar-te-ei no sombrio Tártaro, no seio das sombras funestas e horríveis. Nem teu pai, nem tua mãe venerável poderão devolver-te à luz, e tu viverás eternamente sob a Terra.” Mercúrio respondeu-lhe com astúcia: Filho de Latona, por que falas de maneira tão impressionante comigo? Por que vens procurar aqui as tuas reses? Eu nunca as vi, e delas nunca ouvi falar; não me é possível indicar-lhe o ladrão; por conseguinte, não receberia a recompensa prometida a quem fizer com que o descubras. Não tenho a força do homem capaz de roubar rebanhos. Não é esse o meu trabalho, porquanto outros cuidados me reclamam: preciso do suave sono, do leite de minha mãe, destas fraldas que me cobrem, e dos banhos mornos. Trata de evitar, pelo contrário, que se saiba desta divergência: seria um escândalo para todos os imortais saberem que um menino recém-nascido transpôs o limiar de tua morada com reses não domesticadas. O que dizes são palavras de insensato. Nasci ontem, as pedras houveram dilacerado a pele delicada dos meus pés; mas se exiges pronunciarei um juramento terrível: jurarei pela cabeça de meu pai que não conheço o ladrão das tuas reses.” (Hino homérico).

Entretanto, Apolo não se deu por vencido, e pegando o garoto ao colo, o levou a Júpiter, a quem pediu os bois que o filho lhe roubara. Mercúrio começou por negar descaradamente o roubo; mas Júpiter, que tudo sabe, ordenou-lhe que devolvesse o que pegara indevidamente, e o menino conduziu Apolo para a gruta em que ocultara os animais. Enquanto Apolo os contava, Mercúrio começou a tocar lira, instrumento que ele acabara de inventar, e Apolo ficou de tal modo encantado que quis comprar-lho. Mercúrio, na sua qualidade de deus do comércio, valeu-se da ocasião para um bom negócio, e pediu em troca os bois. Apolo, imediatamente, tentou tocar lira, mas enquanto lidava para arrancar os acordes, Mercúrio descobriu o meio de inventar o cálamo. Apolo desejou também o novo instrumento, que Mercúrio lhe vendeu em troca do caduceu, vareta mágica, entrelaçada de serpentes e que lhe serviu mais tarde para adormecer Argos. O descaramento com o qual Mercúrio soube mentir no mesmo dia em que nascera, e a inteligência com a qual defendeu uma péssima causa, lhe garantiram o patronato dos advogados.

Um epigrama da Antologia zomba do deus dos ladrões: “Posso tocar numa couve, deus de Cilene? – Não, transeunte. – Que vergonha há nisso? – Não há vergonha, mas existe uma lei que proíbe apoderar-se do bem alheio. – Que coisa estranha! Mercúrio estabeleceu uma lei contra o roubo!”