VIVER COM OS WAIMIRI ATROARI

Durante quatro anos vivi uma experiência que mudou para sempre o rumo que minha vida tomou. Tenho 48 anos, sou natural da cidade de Volta Redonda e vivo desde os meus dezoito anos no Rio de Janeiro para onde vim a fim de ingressar na universidade em 1980.

Um colega de infância havia se mudado para a Amazônia e estava trabalhando junto a um projeto da Funai que tinha por objetivo a montagem de um programa de assistência que minimizasse os problemas criados para o grupo indígena Waimiri-Atroari pela construção da hidrelétrica de Balbina no estado do Amazonas, a cerca de 150 quilômetros de Manaus, que alagaria parte da reserva onde vivem. Era o ano de 1987, Manaus vinha, há anos, enfrentando um grande déficit de energia elétrica e a construção da hidrelétrica surgiu naquela década como uma das possíveis soluções para o problema, apesar dos protestos de pesquisadores, ambientalistas e toda a sociedade civil, que reconhecia nela um empreendimento de alto custo financeiro e ambiental. Vivíamos no período de transição da ditadura militar e decisões sobre esse tipo de empreendimento eram tomadas de forma autoritária, unilateralmente e à revelia dos protestos da sociedade civil.

Meu amigo passou a coordenar o Subprograma de Educação do recém montado Programa Waimiri-Atroari que tinha o objetivo de atuar junto aos índios desenvolvendo projetos que pudessem compensá-los pelas perdas advindas do alagamento. Seu convite, apesar de tentador, implicava em me desprender de tudo que, então, me ligava ao Rio de Janeiro: a faculdade de música que eu cursava, um namoro de mais de um ano e de toda a minha família enfim. Significava também mudar radicalmente de vida e me jogar numa experiência na qual eu não sabia propriamente o que iria encontrar pela frente. De minha parte, havia uma grande curiosidade em conhecer toda uma região que me era completamente estranha, o que me animava a viver essa aventura. Segundo ele me informara, minha função seria a de atuar como professor de educação indígena junto a uma das, então, 10 aldeias espalhadas pela imensa área indígena waimiri-atroari situada entre os estados de Amazonas e Roraima. O objetivo era ajudar a realizar um dos desejos expressos pelos índios: aprender a ler e escrever; primeiramente na língua materna waimiri-atroari, em português e também ensinar a matemática.

Quinze dias após chegar a Manaus, Edith Lacerda, então minha namorada, e depois esposa, resolveu também se jogar nessa aventura e foi para lá morar comigo. Uma primeira grande mudança acontecia na minha vida: o casamento. Esperamos cerca de três meses até que finalmente pudéssemos entrar na área indígena. Nesse período, trabalhávamos num escritório em Manaus que servia de sede para o Programa Waimiri-Atroari, acolhendo os índios que estivessem em trânsito pela cidade, fosse por motivo de doença ou qualquer outra necessidade. Logo que cheguei a Manaus passei cerca de um mês hospedado lá e os primeiros contatos com os índios foram marcados por um mútuo estranhamento e desconfiança. Lembro bem ainda da sensação de, certa manhã, acordar com a cama rodeada por eles, olhando e rindo para o “futuro professor”. Os três meses que permanecemos em Manaus serviram para que pudéssemos aprender o pouco que havia de literatura já sistematizada da língua, aproveitando para com eles conviver quando por lá passavam.

Assim como a grande maioria da população indígena do Brasil, também os Waimiri-Atroari tem uma história muito traumática de relação com a sociedade brasileira. Pouca gente até hoje sabe quem são eles. Pertencem a família lingüística karib e habitam a região dos rios Camanaú, Curiaú, Alalaú e Jauaperi, entre os estados de Amazonas e Roraima. Os primeiros contatos com o grupo datam do século passado, com o avanço das frentes extrativistas de drogas do sertão. Entre borracha, balata e produtos da floresta, os índios waimiri-atroari eram caçados e tidos como uma ameaça da selva. Eram conhecidos por nomes como crichanás, atruaís, jauaperis, e, guerreiros, semearam mitos, histórias e medos entre a população vizinha. Conflitos, doenças, abusos e massacres passaram a fazer parte da história desse povo durante o processo de contato com a sociedade brasileira em seu avanço sobre os ancestrais territórios indígenas das terras baixas da América do Sul. O contato definitivo com a etnia coincide com o fim dos trabalhos de construção da rodovia federal a BR-174, entre 1968 e 1974, por parte do governo militar, cujo trajeto rasgou ao meio a área geocultural do grupo. Laudos antropológicos do período anterior ao estabelecimento do contato definitivo com o grupo apontavam para uma população estimada entre 2000 e 2500 espalhados por uma vasta região entre os estados de Amazonas e Roraima. Com o estabelecimento de contato definitivo, processo conduzido pela Funai sobre pressão dos batalhões de construção do exército para a construção da estrada, a população ficou reduzida à cerca de 387 indivíduos. A maioria dos indivíduos foi morta devido às doenças transmitidas pelos “brancos” para as quais eles não possuíam herança genética que lhes permitissem resistir. Se as doenças foram as principais causas de depopulação do grupo, ao longo dos anos de convivência com os índios foi possível ouvir também inúmeros relatos de massacres e verdadeiras guerras entre índios e “brancos”. Alguns deles sequer podiam ouvir seus parentes narrarem tais episódios, pois a lembrança de ter os parentes dizimados era forte demais para que pudessem suportar. Além da hidrelétrica de Balbina, também na década de 1980, ainda sob o governo militar, mais de meio milhão de hectares foi desmembrado da área dos índios para que fosse feita a exploração de uma das maiores minas de cassiterita do mundo pelo Grupo Paranapanema, que passou a escoar, de forma arbitrária, o minério por meio de uma estrada aberta por dentro da reserva. Assim, empurrados a um contato forçado e definitivo, os waimiri-atroari se vêem de um lado frente à impotência da FUNAI em defender seus interesses, e de outro nas malhas da política paternalista que passa a fazer a mineradora através da distribuição de comida e bens de consumo que lhes eram ainda muito estranhos, causou-lhes uma enorme desestruturação cultural.

Foi dentro desse quadro que eu e Edith vivemos com os índios durante quase quatro anos. Porém a experiência mais difícil durante todo esse período foi não conseguir deixar de ser visto por eles como alguém que fazia parte de uma sociedade que lhes legou tudo isso, que massacrou, dominou e subjugou seu povo. Por mais que, como educadores, as nossas intenções fossem as mais louváveis e mesmo sendo a função de professor muito bem quista pelos índios – já que logo perceberam o papel crucial da escrita na nossa sociedade – não havia meios de apagarmos um histórico de violências e conflitos tão traumáticos e contundentes. Ao mesmo tempo e por mais que tentássemos deixar claro que na nossa sociedade nem todos estavam de acordo com os métodos de dominação adotados pelos governantes de outras épocas, isso não diminuía nem anulava os efeitos que já haviam sido causados ao grupo. Assim, mesmo que da parte dos índios o relacionamento conosco tenha se pautado sempre num maravilhoso cuidado, receptividade, cumplicidade e amizade, foi preciso aprender também a conviver com o fantasma de uma herança de ganância, falta de respeito e violência de nossa sociedade para com eles, que, muito justamente, frequentemente nos assombrava, revelando os limites eles, os “k’inja” (lê-se “quinhá” e é a autodenominação dos índios Waimiri-Atroari), e nós, os “kamnja” (lê-se caminhá e refere-se aos ‘homens brancos’, classificados, se assim é possível dizer, em outra categoria de humanidade).

Fomos para lá para ensinar, mas acabamos peremptoriamente reeducados a olhar, com olhos novos, os nossos conceitos e preconceitos, ideias e crenças, práticas e atitudes, arte e música, nossa própria cultura enfim, estranhando tudo a cada momento. Os índios não são, como muitas vezes se pensa, mais puros, inocentes ou ingênuos do que qualquer um que viva em sociedades complexas como a nossa. Esse tipo de mentalidade faz parte do mito do “bom sauvage” do qual falava Jean Jacques Rousseau já no século XVIII e que via nos índios o exemplo de uma simplicidade e pureza que o homem “civilizado” estaria cada dia mais perdendo. Não, o que pude descobrir foi uma imensa sutileza e complexidade existente em diversos aspectos da cultura waimiri-atroari. A sabedoria acumulada pela interação ecológica que a cultura waimiri-atroari constituiu, se expressa na produção de uma flecha, de uma casa ou de uma canoa, na riqueza de um mito contado pelos anciãos ou nas texturas sonoras criadas pelo emaranhado das flautas e vozes durante as festas do Marubá, na sabedoria em lidar com as plantas e no profundo conhecimento e aproveitamento que fazem da floresta. Durante todos aqueles anos o que mais pudemos perceber foi o quanto nossas culturas eram distintas e o quanto havia para se aprender com eles, mas também o quanto éramos similares nos momentos de alegria e tristeza, prazer e ansiedade, conquistas e fracassos.

Nos primeiros dois anos moramos no Posto Indígena do Jundiá e íamos de bicicleta pela BR-174 até a aldeia Xeri, distante dele seis quilômetros. Na verdade, as aulas funcionavam na base de uma troca: na medida em que íamos aprendendo a falar a língua waimiri-atoari íamos devolvendo a eles o que aprendíamos ensinando-lhes a escrevê-la. Além da própria língua ensinávamos a também o português e a matemática. Particularmente na matemática, as dificuldades eram imensas, pois ficavam muito claras as diferenças entre a presença totalizante de nossa concepção do mundo e do universo, do céu e das estrelas, e a deles, relacionada à outras modalidades de interpretação da natureza, estreitamente ligadas às próprias narrativas mitológicas para explicar o cosmo. Uma delas conta exatamente uma história sobre a “Queda do céu”:

“Há muitos anos, num tempo remoto em que os Waimiri-Atroari não existiam, o céu incandesceu e começou a lançar fogo sobre a terra. Os animais corriam assustados sem lugar para se abrigarem, a mata incendiada abria grandes clareiras como desertos. O povo antigo que lá vivia lastimava-se sem encontrar solução. Com a terra devastada, podia-se ver ao longe os parentes de outras aldeias a fugir do fogo que caía do céu. Até que se ouviu um grande estrondo e o céu caiu sobre todos cobrindo a terra. Apenas um homem e uma mulher, que eram irmãos, se salvaram protegendo-se junto ao esteio principal da casa. O céu caiu e o esteio fez um buraco nele. Por esta abertura, o casal de irmãos passou para a nova terra que existia sobre esse antigo céu. Foi preciso um longo tempo para se recuperarem dos ferimentos e queimaduras provocados pela queda do céu incandescente. Tiveram que buscar abrigo e um lugar para fazer a roça. Construíram uma casa e começaram a se reproduzir. E assim foram nascendo muitos filhos que os auxiliavam no plantio e na colheita. Para cada um deles, contavam a história da queda do céu. Esses filhos tiveram outros filhos e é por causa deles que os Waimiri-Atroari existem. Os antigos contavam que o céu já caiu algumas vezes. Esta, em que o casal de irmãos se salvou, foi a última vez. O céu que caiu foi substituído por esse que existe até hoje. Porém, dizem, chegará um tempo em que esse céu também cairá”.

Narrativas como essa nos lembrava a cada instante que a criação do mundo pode ser concebida das mais variadas maneiras e, também, o quanto as nossas próprias visões de mundo estão impregnadas de concepções igualmente míticas, mesmo que estejam apoiadas em pretensas objetividades científicas. Seus deuses guardam particularidades: Mawá, por exemplo, mesmo sendo o grande líder guerreiro criador de tudo, é, como muitos deuses gregos, falível, concupiscente e vingativo. Após os dois primeiros anos, passamos a morar numa casa construída para nós dentro da aldeia, o que modificou a qualidade de nosso convívio com eles. Se, nas noites quentes da aldeia, todos os índios, dos mais velhos aos mais novos, tinham um especial prazer em nos ensinar os segredos da cultura waimiri-atroari, o líder da aldeia onde morávamos, Paruwé Mario, atuava como um dos nossos principais professores. Com as crianças observamos como transformar besouros e pássaros em pequenos brinquedinhos animados, além de nos levarem para conhecer a roça cultivada que circundava a aldeia antes de se atingir à floresta. Com as mulheres, nos exercitávamos nas sutilezas dos trabalhos artesanais de confecção de redes, pulseiras e tangas, acompanhando as soluções que dão para o momento do parto, o zelo e cuidado com os filhos e a forma de preparação dos alimentos. Já com os homens eu saia para caçar e pescar, aprendendo depois como limpar os animais para o consumo. Constatava a riqueza dos conhecimentos sobre os bichos e as plantas, muitas delas para os quais sequer temos nome em português. Aprendia a forma como acontece o rodízio de terrenos para o plantio das roças onde cultivam cana, variedades de mandiocas, banana, mamão, melancia; o uso ritual e inteligente dos recursos da floresta; a construção de casas, flechas, e cestos, além das histórias ancestrais que conferem significados a essas e outras experiências cotidianas. Os mais velhos materializavam a força da tradição, da onipresença da oralidade como forma de transmissão cultural, dos mistérios da cura pelas plantas, saber acumulado ao longo de toda uma vida.

Viver entre os waimiri-atroari nos fez, vez por outra, esquecer o nosso próprio ciclo de tempo, tão marcado por dias, semanas e meses, noções que a eles não faziam, até bem pouco tempo, sentido nenhum. Seus ciclos são vividos segundo tempos de plantar e colher, medidos pelas cheias e vazantes, pelas festas e celebrações, tempos medidos não pelo relógio, mas pela relação que criam e estabelecem com a natureza, em constante diálogo com ela. Toda essa experiência junto aos waimiri-atroari foi decisiva na forma como a minha vida profissional passou a se conduzir a partir de então. De volta ao Rio de Janeiro em 1992, terminei a faculdade de música e lancei, em 2000, meu CD Marubá, com composições próprias no qual, na faixa que dá nome ao álbum, tentei revelar um pouco dessa experiência transformadora, e cuja letra diz assim:

Pelo rio na canoa vai o índio
pra buscar comida para celebrar
cana, banana e beiju
anta, guariba e mutum
vou trazer o que Mawá trouxer pra mim
na ponta da flecha, aponta que lança
na ponta da flecha, apontar

Pela trilha da floresta vai o índio
pra buscar palha pra corda para celebrar
toda vida, todo nascimento
toda morte, todo casamento
água e terra, sol e lua, homem e mulher
na corda que bate, acorda criança
na corda que bate, acordar

Vou fazer meu Marubá, vou festejar
vou pra festa pra cantar e dançar

Esse ano, quase vinte depois de retornar da área indígena, finalizei meu doutoramento em etnomusicologia que teve na experiência com os índios a principal inspiração que me conduziu em direção a essa área de conhecimento, mesmo que minha tese tenha tratado de outro tema. Em setembro passado, recebemos um telefonema de Paruwé Mário e mais alguns índios que conosco conviveram. Entre eles estava seu filho, Imada Janílson, na época com apenas cinco anos de idade e que hoje desponta como uma das lideranças, falando português com fluência, assumindo a condição de motorista (com carteira) e sabendo como transitar pela nossa sociedade de maneira igualmente fluente. Especialmente para nós, foi um telefonema muito emocionante, pois revelou a atualidade e sinceridade de uma relação construída com eles durante parte de nossas vidas. Nossa filha Dora, nascida há pouco mais de seis anos, e que sempre nos ouve contar histórias sobre aquele período, fez seu singelo pedido a Paruwé: queria visitar a aldeia. Paruwé disse que era para a levarmos até lá, pois seria muito bem recebida.

Desde aquele período não voltamos mais à área indígena, principalmente porque visitá-los não depende só de nossa vontade. Como resultado do trabalho que desenvolvemos naquele período junto ao Subprograma de Educação, foram produzidos um livro de mitos e um pequeno dicionário bilíngüe que ajudou o grupo em seus primeiros anos de processo de alfabetização. Esses livros foram, na verdade, fruto do esforço conjunto de vários educadores que na época dedicaram parte de suas vidas para que os índios pudessem ter sua cultura um pouco mais respeitada. Além destes trabalhos, Edith Lacerda, elaborou também um estudo sobre aspectos da língua waimiri-atroari para seu curso de especialização em Línguas Indígenas Brasileiras. Esses livros e trabalhos não foram os primeiros a serem escritos sobre os índios waimiri-atroari, há uma pequena e interessante bibliografia produzida sobre eles, dentro e fora da academia.

Atualmente a situação do grupo é bem distinta e outros tantos trabalhos vem sendo produzidos sobre e por eles. Felizmente hoje já contam com inúmeros professores, agentes de saúde e administradores indígenas numa crescente população de mais de 1300 indivíduos, segundo dados do próprio Programa Waimiri-Atroari. O que ficou para nós de toda essa experiência foi a revelação da possibilidade de construção de grandes amizades e parcerias apesar – e talvez por causa – das diferenças culturais que nos ensinaram a ver, cada vez mais, a necessidade da sociedade brasileira aprender a respeitar a diversidade cultural como um bem fundamental para a melhoria da qualidade de vida de todos, k’injas e kamnjas.

Waimiri-Atroari - Amazonas - 1989<br /> (http://www.waimiriatroari.org.br/)