“Se esticar um arco…”

“Se esticar um arco, estique o + forte. Se usar uma flecha, use a + longa. Para atirar num cavalheiro, atire primeiro em seu cavalo. Para pegar um grupo de bandidos, capture primeiro o líder. Assim como um país tem as suas fronteiras, a matança de homens tem seu limite. Se for possível impedir o ataque de um inimigo (com um golpe na cabeça), por que matar e ferir mais gente do que o necessário?”
{Du Fu, poeta chinês da dinastia Tang, séc. VIII}

“Os eventos não acontecem a nós, nós acontecemos a eles” (Dane Rudhyar)

“Eu tenho afirmado que os eventos não acontecem a nós, nós acontecemos a eles. Um indivíduo caminha – ou deriva ao longo de caminhos sociais coletivamente determinados – em direção ao futuro. Ele encontra o vasto espetáculo universal de ação e reação. Ele encontra o mundo; o mundo não se dá ao incômodo de ir ao encontro dele. Se um tijolo cai sobre a cabeça de um homem enquanto ele caminha por uma rua, isso é de sua responsabilidade. Ele penetrou na área de queda do tijolo. Ele aconteceu para o tijolo, porque é um indivíduo consciente, e o tijolo é apenas um pedaço da natureza universal. O homem acontece para a natureza. Usa as forças da natureza; a responsabilidade pelos resultados é sua. A natureza é indiferente. Ela simplesmente age e reage. Ela tem poderes; melhor ainda, ela é poder. Como certa vez escreveu um sábio homem: “Todos os poderes da natureza estão aí. Aposse-se deles”… mas se você se apossa deles, os resultados são de sua responsabilidade. E, caso não se apodere deles, ao chegar a hora da sua maturidade espiritual, isso também é responsabilidade sua.”

(extraído de A prática da astrologia como técnica de compreensão humana, de Dane Rudhyar, Ed. Pensamento, 1968, tradução de Maio Miranda)

“A astrologia nasce da pungente necessidade de ordem que há em todos os homens” (Dane Rudhyar)

“A astrologia nasce da pungente necessidade de ordem que há em todos os homens. Os fenômenos celestes revelam essa ordem; e, usando essa ordem como uma fita métrica, um relógio, o homem estabelece uma relação entre ela e tudo o que acontece no íntimo e ao redor dele satisfazendo, assim, finalmente, seu ardente desejo de harmonia. Ele aprende a identificar a sua consciência e a sua vontade com os padrões e ritmos “celestes”. Ele se unifica com o princípio da ordem universal, a que muitos dão o nome de “Deus”. E, vivendo ordenadamente, torna-se uma pessoa integrada: um homem de sabedoria. Embora as energias da sua própria natureza, ou da sociedade em guerra, possam golpear-lhe a consciência através das portas dos seus sentidos e dos seus sentimentos. Todavia, ele mesmo, como Individualidade centralizada e integrada, está em paz. Pois, para ele, até mesmo a tempestade mais destrutiva tem o seu lugar e a sua função dentro da ordem do seu destino, ou do destino da humanidade. E por “destino” ele entende: o todo completo de um ciclo de existência.”

(extraído de A prática da astrologia como técnica de compreensão humana, de Dane Rudhyar, Ed. Pensamento, 1968, tradução de Maio Miranda)

Milarepa, o asceta

“Recluso nos implacáveis cimos himalaios, Milarepa viverá assim até sua morte, dedicado à ascese, alimentando-se de papas de urtigas e tomando um aspecto descarnado e cadavérico, o corpo nu cobrindo-se de pêlos verdes.
Seus primeiros anos como eremita são inteiramente consagrados à penetração de verdades metafísicas apreendidas junto a Marpa.
Compõe cantos admiráveis, que são um dos tesouros da espiritualidade universal.

Descendente de Naropa e do Sendeiro da Libertação.
Que eu possa, solitário, ligar-me com sucesso à solidão.
Que os prazeres do mundo ilusório não me tentem;
Mas que cresça a tranquilidade da meditação;
Que eu não descanse mergulhado na inconsciência da quietude;
Mas que o desabrochar da Supra-Consciência brilhe em mim.
Que os pensamentos mundanos, criações do espírito, não me contrariem;
Mas que a folhagem luxuriante do Incriado brote em mim.
Que eu não seja, em minha ermitagem, perturbado pelos conflitos mentais;
Mas que eu possa fazer amadurecer o fruto do conhecimento da experiência.
Que Mara e seus exércitos não me confundam.
Mas que eu possa descobrir minha satisfação no conhecimento do meu Verdadeiro Espírito.
Que eu não duvide do Sendeiro e do método que sigo;
Mas que o percorra nas trilhas de meu pai espiritual.
Ó gracioso Senhor, Encarnação do Imutável.
Concede-me tuas bençãos! Que eu possa, eu, o mendigo, ligar-me firmemente à solidão.

Milarepa ascendeu por fim à beatitude e se estabeleceu no Nirvana.”

(extraído de O budismo tibetano, de Jean-Michel Varenne, Ed. Martins Fontes)