“Quem segue o caminho seguro está como que morto. Foi só depois da minha doença que compreendi o quanto é importante aceitar o destino.”

“Quem segue o caminho seguro está como que morto. Foi só depois da minha doença que compreendi o quanto é importante aceitar o destino. Porque assim há um eu que não recua quando surge o incompreensível. Um eu que resiste, que suporta a verdade e que está à altura do mundo e do destino. Então uma derrota pode ser ao mesmo tempo uma vitória. Nada se perturba, nem dentro, nem fora, porque nossa própria continuidade resistiu à torrente da vida e do tempo. Mas isso só acontece se não impedirmos que o destino manifeste suas intenções.”
(extraído de Memórias, sonhos, reflexões, C.G. Jung, Editora Nova Fronteira)

As três causas do desânimo (Louise Huber)

“A primeira causa é, frequentemente, um enfraquecimento da força de vida, um esforço excessivo do corpo físico devido ao grande número de tarefas e deveres. Se for este o caso, é necessário que se cultive a calma e o relaxamento. É uma questão de bom senso. É importante compreender que o trabalho de cada indivíduo deve estar adaptado à sua capacidade de realização e não a esmagadora necessidade.
A segunda causa é do tipo emocional. É o medo de falhar quando se tem algo a fazer. Está no receio de ser criticado porque a pessoa tem consciência de suas próprias limitações e insuficiências. Psicologicamente, esse medo tem suas raízes no fato de que se toma o trabalho e a si mesmo muito a sério, acreditando-se que o progresso do mundo depende dos esforços de um único indivíduo. A fim de atingir o equilíbrio, deve-se cultivar mais o humor, o aspecto cômico das coisas. Não nos devemos levar tão a sério e, sob certas circunstâncias, devemos rir de nós mesmos, de nossas próprias limitações e fraquezas. Daremos assim, o primeiro passo para nos libertar de uma postura forçada.
A terceira causa está em nossa estrutura mental, ou seja, no pensamento. Ela consiste na capacidade de ver todos os lados de uma questão. Sabemos de antemão o rumo das coisas, mas nada fazemos para não nos expor a qualquer perigo ou nos ridicularizar. Falta coragem. Acredita-se que qualquer ação nossa não tenha a menor utilidade. Desse modo, negligenciamos o próprio desenvolvimento e, frequentemente, perdemos a oportunidade de socorrer o próximo. Deve-se cultivar o senso das corretas proporções. A solução está no reconhecimento de que é melhor fazer alguma coisa ao invés de permanecer inerte, mesmo que esta ação não traga um enorme benefício. Devemos nos contentar com pequenos sucessos sabendo que, no final, o tempo, a eternidade e a evolução realizarão todas as coisas e que o mundo não foi feito em um dia. É importante conhecermos o tempo certo das coisas.”
(extraído de Signos, zodíaco, meditação, de Louise Huber, editora Totalidade/Hipocampo Editores)

Saturno (em Imagens da psique, de Christine Valentine)

Em última análise, a maioria de nossas dificuldades surge quando perdemos contato com nossos instintos, com a sabedoria milenar armazenada em nós. Qual o lugar onde mantemos contato com esse ancião que vive em nós? Os sonhos.

(C. G. Jung)

“Qualquer tentativa de negar nossa humanidade evoca Saturno ou aquela parte de nós que parece frustrar ou negar nossa onipotência, colocando-nos em nosso lugar, a queda que fere os calcanhares de nosso orgulho. Quando vivenciamos Júpiter, sentimo-nos como se tudo estivesse ao nosso alcance, como se o mundo fosse nossa ostra e Deus um pai amável e generoso. Quando vivenciamos Saturno, sentimo-nos inadequados e limitados, como se aquilo que quiséssemos estivesse sempre além de nosso alcance, cheio da dor dos desejos frustrados e insatisfeitos, que só podem ser saciados se estivermos preparados para merecê-los. Agora, Deus é o mestre rude, severo e exigente que quer que aprendamos a esperar, a nos esforçar, a desenvolver a paciência e a autodisciplina, qualidades bem distantes da promessa de abundância feita por Júpiter. Assim, a menos que possamos compreender o valor da dor e da frustração, Saturno representa uma reviravolta do destino, cruel, imerecida e sem sentido, que o cristianismo atribui ao Diabo – Saturno como Satã. Entretanto, Liz Greene trata Saturno como “aquele processo psíquico natural em todo ser humano, por meio do qual o indivíduo pode utilizar a experiência da dor, da restrição e da disciplina como meio de atingir a plenitude da consciência e da satisfação.” Assim, Saturno também nos oferece oportunidades, e a dor se associa ao crescimento.
O analista jungiano Ean Begg disse que “Saturno purifica o homem da escória da irrealidade através do sofrimento”, e a dor que aqui está associada à purificação sugere o fogo alquímico. Temos a imagem da remoção do que é supérfluo, não-essencial e ilusório, deixando-nos pura e simplesmente com ‘aquilo que existe’, a realidade pura, sem qualquer verniz ou enfeite, livre de imagens que mostram como gostaríamos que as coisas fossem. Isso pode ser doloroso, pois pouco há de mais devastador do que a perda das nossas ilusões mais preciosas. Por outro lado, também é libertador, pois não precisamos mais desperdiçar energias em busca do arco-íris, dedicando-nos a construir, a desenvolver e a refinar o que já existe a serviço do que é realisticamente possível, daquilo que podemos chamar de ‘sermos nós mesmos.’ Com efeito, enquanto não pudermos superar nossas ilusões, não conseguiremos sequer enxergar o valor desse tesouro e utilizá-lo. Ele pode ser ainda mais rico e valioso do que nossos sonhos, mas este fato é geralmente deixado de lado. Parece que a única coisa que nos força a meditar é a experiência da dor e da frustração, algo que, mais cedo ou mais tarde, gera a introspecção e a busca da alma.”

(extraído de Imagens da psique, de Christine Valentine, Ed. Siciliano, 1994, tradução: Marcello Borges)